quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Especialização e bom senso

O gestor é um especialista em muitas coisas. É um homem dos mil truques. É um artesão que sabe usar todo o tipo de ferramentas. E, quando é preciso, transforma-se num improvisador.

Pouco há de comum entre os diferentes conhecimentos de que os gestores se servem no desempenho das suas funções. O Marketing, por exemplo, é muito diferente da Contabilidade; a Estratégia e os Recursos Humanos pertencem a mundos opostos. Aquilo que integra estas disciplinas tão diferentes, o que as coloca no seu lugar, é a finalidade para a qual são usadas: todos esses conhecimentos são instrumentos para atingir os objectivos da empresa.

As especialidades de Gestão gozam desta forte unidade através dos fins. São muito diferentes umas das outras, mas estão a ser usadas para o mesmo fim, como acontece com os diversos utensílios que se usam para constroir uma casa, para fazer sapatos, para realizar uma cirurgia ou para assaltar um baluarte inimigo.

Aquilo que é visto como o mais importante para o sucesso de uma empresa tem evoluido ao longo dos anos. As décadas posteriores à 2º grande guerra (1945) deram relevo à produção e à Investigação Operacional, ao Controlo de Qualidade e, em geral, a tudo o que diz respeito ao curto e medio prazos. Publicavam-se estudos sobre optimização, o departamento de organização e métodos fazia parte necessária das empresas de alguma dimensão e as poucas escolas de Gestão que iam surgindo não viam inconveniente em acrescentar “Organização” à lista dos seus pergaminhos. Gestão, nesse tempo, era Organização.

Por volta dos anos setenta deu-se uma viragem: todos esses conteúdos foram relegados para um segundo plano e alguns foram até varridos dos currículos. O que originou esta reacção foi a ideia de que a gestão do curto prazo não era assim tão decisiva e podia mesmo tornar-se numa prática rotineira geradora de inércia, ou decorria de uma visão estática sem lugar para o risco, para a mudança. O longo prazo, a estratégia, impôs-se e começou a reinar.

Hoje, mercê do progresso no uso de redes digitais, a Organização voltou à ribalta: tudo o que diga respeito à “cadeia de valor” e à sua “integração” merece interesse imediato. Está a descobrir-se de novo como as ciências da organização podem ser importantes. Tornou-se claro que a robustez e a simplicidade das formas organizativas pode conduzir a ganhos substanciais na produtividade e na fiabilidade dos processos. Começou a falar-se da flexibilidade organizativa e dos malefícios de uma visão estratégica demasiado intocável.

Claro que, para além das redes digitais, existiram outros factores para ajudar a esta tendência: os fracassos, estrondosos e caros, que ao longo dos anos oitenta acompanharam a implementação de sistemas de informação, por exemplo, mostraram que não há substituto para o bom senso e experiência organizativa; o facto de muitos desses sistemas serem, mesmo quando implementados com sucesso, factores de rigidez dos processos, transformando-se em verdadeiras camisas de força poucos meses depois de terem sido implementados; tudo isto levou as empresas a re-descobrirem a forma organizativa flexivel e dúctil, fiável e simples.

Outro importante revivalismo dos nossos dias é o das Finanças Empresariais. Os anos oitenta amaldiçoaram o critério da maximização do valor actual dos meios libertos (VAL positivo), acusando-o de gerar vistas curtas; agitaram o fantasma da agência para igualar “gestôr” com “traidor”; negaram qualquer utilidade à análise fundamental e à própria informação contabilística, em nome da eficiência dos mercados; fecharam-se sobre si mesmos e inventaram indicadores auto-suficientes, supostamente capazes de estimar o risco apenas com base nas flutuações do próprio mercado.

Hoje, os antigos conceitos parecem de novo vir ao de cima graças ao rasgar de horizontes trazido, por exemplo, pelo uso de opções reais; a agência deixou de parecer um problema e já poucos têm duvidas de se os gestores aumentam a riqueza dos accionistas; quanto aos fundamentais e à informação contabilística, todos desejam que seja o mais exacta e verdadeira possível e todos lamentam amargamente os casos em que a falta de rigor na contabilidade causou desastres dolorosos, sim, também nos mercados; quanto aos estimadores de risco e à noção de eficiência, estão por sua vez a atravessar a sua zona de penumbra.

Gostava de contar aqui a evolução sofrida por uma especialidade que cultivei, a da validade e utilidade dos rácios contabilísticos. Em finais dos anos oitenta, quando iniciei os trabalhos de doutoramento, os rácios eram vistos no meio académico como uma anedota ilustrativa dos malefícios do imobilismo. Se os analistas ainda os usavam era porque estavam prisioneiros da rotina e não dispunham de nada melhor. Existiam dezenas de artigos a explicarem porque é que os rácios distorciam a análise das contas das empresas e os livros de texto, ao referirem os principais rácios ou o “Triangulo de DuPont”, dedicavam mais espaço a lançar avisos sobre as armadilhas a que os utilizadores estavam expostos do que a explicarem como usar os rácios.

O que me chamou a atenção neste corpo de publicações foi o aspecto envelhecido e recorrente dos argumentos. Era como um filão esgotado ou como uma ideia cuja evolução lógica levasse a um beco sem saida. Por outro lado, apercebia-me de que os alicerces destes estudos eram uma teia de pressupostos inadequados e de interesses que pouco tinham de científico. Haviam sido estes alicerces, não o esgotamento do tema, o que levara ao beco sem saida.

Como é óbvio, nenhuma dessas teorias sobre os malefícios dos rácios, saídas da universidade, encontrava o mínimo eco entre os analistas financeiros. E era fácil de perceber porquê: os universitários não vinham ao encontro dos problemas dos analistas e tinham inventado, em vez disso, problemas próprios que os analistas não sentiam. A razão de ser dos tais pressupostos inadequados era pois o distanciamento entre a comunidade académica e os analistas que usavam rácios.

Não me atrevo a falar de outras áreas do saber; mas nesta, que conheci bem e acompanhei durante vários anos, posso afirmar que se certos temas parecem estagnar ou mesmo se se afundam no esquecimento, isso deve-se à perda de contacto com a realidade por parte da comunidade académica, atreita a deixar-se entusiasmar por modelos ou esquemas conceptuais bonitos que focam as atenções numa parte da realidade em deterimento do todo. Tais formas atingem a simplicidade através de uma redução ou amputação da realidade, não através do seu aprofundamento ou fundamentação.

Estou convencido de que a evolução de muitas ciências não é nada linear: têm conhecido altos e baixos. O progresso científico exige sempre teorização mas existem duas maneiras de teorizar: por aprofundamento duma realidade ou por amputação, simplificação indevida dessa realidade; e a segunda dessas maneiras infelizmente abunda. É uma forma vistosa de “progredir” (e de publicar) mas nada produtiva no medio prazo já que leva à estagnação.

O contacto com a realidade, com o dia a dia das empresas, alimenta a creatividade científica e a imaginação criadora capaz de ser fecunda, capaz de influenciar a prática. E o exclusivismo na especialização conduz frequentemente a uma certa perda do sentido da realidade.

À medida que uma ciência amadurece, os especialistas que a ela se dedicam vão-se tornando mais especializados. Istp é natural. Mas acontece frequentemente que, com essa especialização, esses especialistas tornam-se exclusivos, fechados, crípticos. O perigo da amputação da realidade aumenta. Tal processo é em certa medida esperado mas merece ser contrariado através do cultivo, nas escolas, do perfil do investigador pluri-disciplinar e do trabalho com empresas.

Acima de tudo, bom senso. O bom senso é aquela qualidade que nos leva a compreender a realidade sem a amputar, sem deixar partes dela de fora.

Duarte Trigueiros,
1996, adaptado do prefácio a um livro.

4 comentários:

MAR disse...

O tema é bastante abrangente e o que quer que possa considerar será sempre ínfimo relativamente ao oceano de possibilidades que possibilita.
Na Gestão seja ela qual for, de nível institucional, ou de nível intermédio ou mesmo de nível operacional, terá de existir sempre a especialização. Senão vejamos: como é que um gestor, por hipótese de nível intermédio especializado em finanças se comportaria a gerir ou administrar uma empresa de hotelaria, ou mesmo a hipótese contrária, ou outra. Não que esse gestor não fosse capaz de se adaptar, mas que levaria o seu tempo levaria, ou melhor dizendo não estava especializado naquele tipo de gestão especificamente. A especialização em qualquer área é em minha opinião o factor mais importante e fundamental para o sucesso. Nos dias correntes o papel do Gestor faz-se sentir em todas as actividades, atingindo por isso níveis de excesso, pelo que é necessário que o gestor se especialize por forma a poder oferecer aquilo a que poderemos chamar dois em um, quer dizer Gestor e Especializado. Não tenho dúvidas de que cada vez mais do que nunca o Gestor para ter sucesso e se poder integrar com alguma facilidade no mercado de trabalho e profissional terá de se especializar nas diversas áreas que o próprio mercado oferecer. Claro que os casos relatados no texto já têm perto de 30 anos e por conseguinte estão desenquadrados da actual realidade. O dinamismo dos mercados obriga a que as actividades também sejam elas dinâmicas e quanto maior for a criação da necessidade no mercado de consumo maior terá que ser o dinamismo da actividade. Por outras palavras se o Gestor não se conseguir preparar especializando-se numa das actividades que o mercado oferecer então a sua iniciação no mesmo mercado de trabalho vai ser difícil e morosa no tempo.
Quando no mercado o Gestor "obrigatoriamente" terá de usar bom senso sempre que for chamado a ajuizar seja o que for, aliás se bem que não exista uma unidade de medida para o bom senso, diria que sempre que for chamado a ajuizar o Gestor terá de utilizar várias "toneladas" de bom senso por forma a que as suas decisões possam obter os melhores resultados. Por outro lado não será só o bom senso a imperar, eu acho que também é fundamental que impere a coragem. A coragem em aliança com o bom senso fará uma das duplas mais fortes da Gestão e voltando ao exemplo do Gestor especializado em Finanças e o Gestor especializado em Hotelaria imaginemos que o Gestor de Hotelaria numa hipotética situação de baixa taxa ocupação das suas disponibilidades em nº. de camas tem a coragem de , por hipótese, baixar os preços da tarifa diária em 25% e com este acto aumentar a taxa de ocupação. Para mim este é um acto de coragem, perder de ganhar para não perder tudo. Ao mesmo tempo o Gestor de Finanças, em função das dificuldades financeiras que o país atravessa, se tivesse a coragem de aumentar imaginemos o IVA em 2%, eu diria que não seria um acto de coragem mas sim um "suicídio". Aqui, claro está que teria de imperar o bom senso e não a coragem.
Quer num caso quer noutro a coragem tem que estar presente mas não pode ser aplicada sem que seja em combinação com o bom senso. É claro que por vezes o bom senso é mais forte do que a coragem por outras é a coragem que é mais forte.
Gestão, Especialização, Bom Senso e Coragem.

Anulo nº.34954 - Turma A - 1º.Ano
Curso de Gestão de Empresas

Mário Ramos

Anónimo disse...

O meu comentário vem de encontro à relevância do Bom Senso na lista de “skills” pessoais de um gestor e ainda a contrariedade existente entre especialização/exclusivismo e Bom Senso.
Este texto relata francamente a importância de do Bom Senso!!
Para um gestor não basta porém especializar-se numa área ou fincar-se arduamente num determinado assunto ou problemática, existem outras condicionantes fulcrais para o desempenho de um gestor, pois, na verdade os grandes líderes, para além da sua formação e especialização, são detentores de uma forte capacidade de carisma racional e intelectual que lhes permite encarar e compreender a realidade na sua íntegra sem discorar no rigor. Uma visão ponderada e abrangente da realidade, sensibilidade apurada, capacidade de análise e de resposta aos problemas surgidos, são ingredientes que fazem do Bom Senso a principal qualidade que faz a distinção entre um “bom” e um “mau” gestor.

Ricardo Patinho
Aluno nº33975
1º ano Turma B
Gestão de Empresas

Gabriela disse...

Para gerir a nível de empresas ou outro qualquer tipo de gestão tem que se ser especialista no assunto não podemos dizer “faz assim” sem o saber-mos fazer. Temos de exemplificar na prática o que a teoria quer dizer.
Para gerir é preciso ter bom senso, principalmente a nível monetário, ter o bom senso de não gastar em bens desnecessários, ter o bom senso de saber gerir os “dinheiros” de forma a podermos cobrir todos os gastos e conseguir ter lucros. Ter bom senso é também ser racional. É pensar bem antes de falar e medir os pós e contras do que vamos dizer, pois a comunicação é uma arma bastante importante no perfil de um gestor. Sem esquecer o bom senso nas relações humanas e na empatia que o gestor deve ter em relação aos outros.

Gabriela Madeira
1º Ano Gestão de Empresas
Turma B
Nº 34935

Pinto Contreiras disse...

Gestão - Processo de se conseguir obter resultados com o esforço dos outros; é esta a definição de Gestão que encontramos nos manuais, muito embora a Gestão seja quanto a mim muito mais abragente do que só aquilo que se consegue com o esforço dos outros.
Gestão é no fundo uma ciência, que vem sendo apurada e desenvolvida ao longo do último século, sempre (penso eu) com um máximo de objectivos atingíveis(não só o de gerar lucros).Devem também ser observadas outras vertentes, como seja o de criar bem estar entre outras,numa qualquer sociedade/organização. A especialização e o bom senso, devem acompanhar o Gestor e fazer parte do seu património intelectual e cultural ajudando-o na sua principal tarefa de criador de valor.Muito haveria mais para comentar, mas devemos ser sintécticos, tal como nos pediu o nosso Professor Doutor Duarte Trigueiros.

Aluno nº 34956-turma A - Gestão de Empresas